Passarela Ambulante
As saídas das passarelas subterrâneas do Plano Piloto se transformam em lanchonete nas primeiras horas do dia. De olho nos trabalhadores que saem de casa sem comer, ambulantes vendem salgados, bolos, cafés e sucos. Alguns chegam a vender mais de cem lanches e empregar parentes, para vender o café da manhã em outras passarelas.
A Administração de Brasília monitora a ação dos ambulantes. Na última quinta-feira (13/09) retirou oito vendedores de churrasco que faziam ponto entre os blocos comerciais da asa norte. A ação aconteceu depois que prefeitos de quadra encaminharam reclamação, que pedia a retirada dos ambulantes. No caso dos vendedores de lanche na saída das passarelas, a situação é de espera, já que a Administração aguarda uma posição do GDF, que estuda uma solução definitiva para o caso.
Enquanto a fiscalização não vem os ambulantes estendem o pano no parapeito das passarelas e garantem o sustento da família. É o caso de Nilzete Santana, baiana de 33 anos, que vende lanche na 109 norte. Separada e há cinco anos sem emprego com carteira assinada, Santana trabalha das três da madrugada até as oito da noite, de segunda a sábado, para garantir o sustento da casa.
A batalha da moradora de Planaltina é grande, para estar as seis da manhã com o lanche pronto, a 40 quilômetros de casa. Na caixa de isopor, forrada com papel alumínio, a variedade do cardápio impressiona. Só de bolo são dez tipos: bolo de queijo, de mandioca, cenoura, milho verde, leite, chocolate, chocolate com côco, granulado, milho com queijo, laranja. Nas garrafas térmicas o cliente pode escolher entre leite, café ou achocolatado. Se preferir pode optar por um dos quatro sabores de suco, congelados no dia anterior, para se manterem frios nas garrafas pet de dois litros.
Santana faz parte dos mais de dois milhões de desocupados, segundo dados divulgados em agosto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que na falta de emprego buscam no trabalho informal um meio de arrumar dinheiro.
Sem emprego, mas com muito trabalho, a baiana conta, enquanto atende seus clientes, que tem realizado grandes sonhos: morar em casa própria, ter um carro para ir trabalhar e recursos para criar com dignidade o casal de filhos. Tudo isso conquistado nos últimos seis anos, com o lanche matinal vendido no parapeito da passarela.
Porém, seus sonhos podem ser interrompidos. O gerente de fiscalização Cláudio Caixeta alerta que mesmo sem uma definição do GDF a fiscalização pode, a qualquer momento, retirar os ambulantes das passarelas. “Eles estão invadindo área pública e podem ter seus pertences apreendidos” avisa.
Nilzete sabe disso. Em 2005, viu por duas vezes os fiscais levarem suas coisas para o depósito. Na primeira vez chorou de revolta e tentou reaver seus quitutes, mas desistiu quando os fiscais ameaçaram multa-la por invasão de área pública. Na segunda voltou para casa e depois de quatro dias já estava de volta ao trabalho, com a tralha toda nova.
Segundo o Diretor de Serviços da Administração de Brasília, Alfredo Abreu, todas as licenças para ambulantes estão canceladas e o GDF estuda a criação de uma lei que regulamente esta atividade. Abreu afirma que a solução para os ambulantes é a licitação de áreas para o comércio, com critérios que privilegiem as pessoas que não possuam recursos para abrir um comércio formal. O Diretor explica que existem pessoas que optam por trabalhar como ambulantes para não pagar imposto. “Durante a fiscalização da semana passada o ambulante da 112 norte encostou uma BMW para retirar o trailer. Como que eu posso dizer que ele é um necessitado?” Questiona.
Para o gerente da Panificadora Favorita, Joaquim Miranda, que fica na 110 norte, o lanche na passarela atrapalha, mas não incomoda. Há 17 anos Miranda atende aos moradores da quadra e acredita que os seus fregueses são diferentes. “As pessoas que comem lá são trabalhadores das cidades satélites, que preferem pagar menos pelo lanche. Meu cliente é o morador da quadra”, aponta.
Santana conta que quando começou a vender lanches, um dono de padaria foi investigá-la. Perguntou o preço das coisas e por fim pediu que ela cobrasse mais caro pela fatia de bolo: de R$ 0,50 para R$ 0,90. Caso contrário iria chamar a fiscalização. Para garantir a boa vizinhança a ambulante aceitou o acordo.
Os fregueses protestam contra a retirada dos ambulantes. Para eles, o lanche na passarela é a salvação. Depois de acordar de madrugada e enfrentar o ônibus cheio, o café com bolo garante a energia para o batente.
O frentista Antônio Carlos, 22 anos, morador de Taguatinga, trabalha a seis meses no posto da 208 norte e sempre toma café na entrada da passarela da 207 norte. Ele garante que a comida é boa e sofre nos dias que a ambulante Maria Alice não vai trabalhar, já que fica sem comer até a hora do almoço. Carlos conta que mesmo quando não tem fome toma ao menos um café. Diz que é para ajudar. “Vê essa gente, levanta a auto estima nossa”, comenta.
Depois do Lanche
Em casa Nilzete entra novamente nos números do IBGE. Nos últimos dez anos o número de mulheres que assumiram a chefia do lar cresceu 35%. Cansada das bebedeiras do marido, a baiana decidiu mudar para a casa em obra, no lote que comprou com as vendas e passou a sustentar as contas da casa e os filhos. Para enfrentar o novo desafio colocou para trabalhar a irmã, Maria Alice e a tia, Maria da Anunciação. Elas vendem os quitutes na passarela da 107/207 norte. Ficam com 30% da venda e curiosamente não ajudam no preparo dos bolos e salgados. Nessa tarefa Nilzete conta com o trabalho de outras duas mulheres chefes de família: Elizene Vieira, 39 anos, mãe de dois filhos e Francisca Silva, 27anos, grávida de gêmeos e mãe de quatro filhos.
Elizene recebe R$ 250 por mês para cuidar da casa e ajudar com os salgados. Dinheiro que, junto com os R$ 120 ganhos com a Bolsa Escola dos filhos, garante o sustento da casa. Já Francisca, ganha R$ 200 mais R$ 50 de cigarro para fazer o café de madrugada e lavar a louça até a última panela suja.
Mesmo com tanto trabalho a baiana se sente feliz. Há um brilho nos seus olhos, enquanto atende os clientes que descem do ônibus, apressados a caminho do trabalho. Para alguns o lanche já virou ponto de encontro. O vigia noturno Adolfo Paraguai, 45 anos, conta que se apaixonou por uma cliente de Santana. Chegou a sair com a nova paixão, mas o romance esfriou quando a mulher revelou que era casada.
Paraguai afirma que lancha há mais de dez anos na passarela 109 norte. Foi freguês da antiga vendedora de bolos, que abandonou o local para se aposentar. O vigia diz que já experimentou todos os quitutes e mostra a enorme barriga, como prova da dedicação.
Higiene
Apesar de morar numa casa em construção, com as paredes sem pintura e os cômodos sem portas, Santana não descuida nos cuidados com higiene. Para isso, prepara diariamente todas as comidas e bebidas. As garrafas térmicas são esterilizadas com água quente e os sucos são preparados com água filtrada. O resultado de tanto cuidado é nunca ter recebido reclamações de seus clientes. Ao contrário, a quitandeira fica atenta aos pedidos dos fregueses. “Sempre que um cliente pede um bolo diferente ou salgado que eu não conheço, procuro aprender como prepara e incluo no meu cardápio”, conta orgulhosa.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
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